História de um álbumFaixa 08
O quebra-cabeça de “Construção” e a orquestra que gravou duas vezes
Na música “Construção”, que dá nome ao disco de 1971, Chico Buarque fez da letra um jogo de palavras em 41 versos, e Rogério Duprat escreveu o arranjo de orquestra. Segundo o produtor Roberto Menescal, os músicos tiveram que gravar sua parte duas vezes.
- Artista
- Chico Buarque
- Álbum
- Construção
- Ano
- 1971
- País
- Brasil
- Gênero
- MPB
- Tempo de leitura
- 4 min de leitura

No fim de 1971, Chico Buarque, então com 27 anos, lançou o disco Construção pela Philips. A faixa “Construção”, que dá nome ao disco, tem cerca de seis minutos e meio, bem mais do que o padrão das músicas de rádio, e fez um sucesso enorme. Em 2009, numa votação da Rolling Stone Brasil, foi eleita a maior música brasileira. Por trás dela há duas histórias. A primeira é a de uma orquestra que, segundo o produtor, teve que gravar sua parte duas vezes, ainda durante a produção do disco. A segunda é a da letra: para o próprio Chico, ela era só um exercício de forma, um jogo com as palavras, e não uma música sobre os problemas dos operários.
01Como nasceu o arranjo
Rogério Duprat escreveu o arranjo de orquestra da faixa “Construção”, ou seja, a partitura que os músicos gravaram no estúdio. O disco foi produzido para a Philips por Roberto Menescal, e a direção musical ficou com Magro, do MPB4.
Décadas depois, numa entrevista, o próprio Duprat contou como foi. Ele já conhecia a música, mas não lembrava bem onde tinha ouvido. Talvez num show. Achou interessante: para ele, era uma brincadeira com proparoxítonas. Quando o chamaram para fazer o arranjo, foi direto ao Canecão, uma grande casa de shows do Rio, onde a música estava sendo ensaiada. Ouviu o ensaio e pediu que arrumassem uma fita para ele trabalhar. Havia pressa, porque a gravação já ia começar. Então Duprat foi para a casa do irmão, que morava no Rio, e escreveu o arranjo lá. Deixou tudo com a equipe de produção e voltou para São Paulo.
02A história de Menescal
Menescal diz que algumas faixas do disco contaram com cerca de 60 músicos. Segundo ele, durante a mixagem, um assistente de estúdio apertou o botão errado e apagou a gravação da orquestra na faixa “Construção”. Não havia dinheiro para chamar os músicos de novo, conta Menescal. Então, sem avisar a gravadora, ele tirou um pouco da verba de outros discos que estava produzindo, entre eles o de Elis Regina, e pôs a orquestra para gravar sua parte outra vez.
Menescal também lembra que a duração da música “Construção”, cerca de seis minutos e meio, preocupava o pessoal das rádios.
03Um jogo de palavras
Em 1973, numa entrevista à revista Status, Chico disse que a música “Construção” era só uma experiência formal, um “jogo de tijolos”, e que não tinha nada a ver com o problema dos operários. A emoção, para ele, estava no jogo de palavras.
Proparoxítona é a palavra cuja sílaba tônica é a antepenúltima. Na letra de “Construção”, o jogo inteiro gira em torno dela: os 41 versos terminam todos numa proparoxítona, e é trocando essas palavras finais que Chico conta a mesma história de novo. Os 17 primeiros versos contam a história de um operário da construção. Os 17 seguintes repetem esses versos um por um, com uma única mudança: a proparoxítona do final. Os 7 últimos resumem a história.
No LP, a letra inteira de “Construção” saiu impressa na contracapa. Menescal conta que foi ele quem a colocou ali.
04Como a letra foi montada
Em fevereiro de 1972, uma reportagem da revista Realidade contou como Chico montou a letra de “Construção”. Primeiro vieram versos soltos, já no ritmo que ficou na versão final. Com eles, Chico fechou a primeira metade da letra, em que a história é contada pela primeira vez. Só então ele chegou às palavras finais alternativas: as proparoxítonas que entram no lugar das originais quando a história é contada de novo. Nas palavras da revista, essas proparoxítonas “alternam-se à vontade, como se fossem peças”.
A reportagem também chamou atenção para um contraste. A letra é complicada, mas a música tem só dois acordes, que se repetem o tempo todo enquanto a letra vai empilhando imagens. Segundo a Realidade, era como colocar uma laje em cima da outra num prédio.
O truque não era novo. Décadas antes, a dupla caipira Alvarenga & Ranchinho tinha uma música cômica, “Drama de Angélica”, em que quase todos os versos terminam em proparoxítona. Para o poeta Fabrício Corsaletti, essa música é “a avó de ‘Construção’”. Ele disse isso à poeta Angélica Freitas, num perfil da dupla que o Sesc São Paulo publicou em 2018.
05Em tempos de censura
A música “Construção” passou pela censura sem nenhum corte. Com outras músicas do disco, foi diferente. Em agosto de 1971, a letra de “Deus lhe pague” recebeu o carimbo de “vetado”. Uma anotação feita à mão, ao lado do carimbo, dizia que a letra parecia um recado com duplo sentido, que podia ser dirigido a alguém ou a algo abstrato. Mesmo assim, é “Deus lhe pague” que abre o disco Construção.
Em “Cordão”, um verso teve que ser trocado, segundo documentos da censura divulgados pela BBC News Brasil. Em “Samba de Orly”, uma música sobre o exílio, o trecho escrito por Vinícius de Moraes foi mudado para passar pela censura. Vinícius continuou nos créditos como parceiro.
Fontes e referências (15)
- 1.Chico Buarque official site, "Construção" (abre em uma nova aba). Song page, with the 1973 Status interview by Judith Patarra
- 2.Chico Buarque official site, "Construção" (abre em uma nova aba). Album credits and track list
- 3.Hamilton Ribeiro, "Chico põe nossa música na linha" (abre em uma nova aba). Realidade, February 1972 (copy from the official site)
- 4.Cláudio A. Tafarello, "A construção da Construção" (abre em uma nova aba). Argumento, n. 11, July 2004
- 5.José Paes de Almeida Nogueira Pinto, "Nossas proparoxítonas geniais" (abre em uma nova aba). Jornal da Unesp, 8 May 2021
- 6.Angélica Freitas, "Perfil: Alvarenga e Ranchinho" (abre em uma nova aba). Sesc São Paulo, 2 February 2018
- 7.Fernando Rosa, "Duprat em Construção, a conexão com a juventude dos 70" (abre em uma nova aba). Rádio Peão Brasil, 16 February 2018 (from his interview with Rogério Duprat for Bizz and Senhor F)
- 8.Olímpio Cruz Neto, "Os 50 anos do disco Construção, de Chico Buarque" (abre em uma nova aba). Vermelho, 14 December 2021
- 9.Guilherme Henrique, "Marco na carreira de Chico Buarque, disco 'Construção' quase foi perdido por erro técnico" (abre em uma nova aba). BBC News Brasil, 20 March 2021
- 10."Pescador de sons" (interview with Roberto Menescal) (abre em uma nova aba). Sesc São Paulo, 29 August 2021
- 11.Paulo Cavalcanti, "Nº 1, Construção" (abre em uma nova aba). Rolling Stone Brasil, 9 November 2009
- 12.Arquivo Nacional / Memórias Reveladas, "Letra da música 'Deus lhe Pague', de Chico Buarque, censurada em agosto de 1971" (abre em uma nova aba). Censorship file BR RJANRIO TN.CPR.LMU.1627/4
- 13.Raquel Setz, "Aos 50 anos, 'Construção' segue um marco na carreira de Chico Buarque e na música brasileira" (abre em uma nova aba). Brasil de Fato, 20 August 2021, republished by IHU Unisinos
- 14.Christian Marcadet, "O poder da imaginação contra a violência do poder" (abre em uma nova aba). Caderno CRH, vol. 19, n. 48, 2006
- 15.Marcos Napolitano, "'Hoje preciso refletir um pouco': ser social e tempo histórico na obra de Chico Buarque de Hollanda, 1971/1978" (abre em uma nova aba). História (São Paulo) 22(1), 2003
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