História de um álbumFaixa 07
Camarón ligou o flamenco na tomada, e quase ninguém quis ouvir
Camarón trocou voz, violão e palmas por bateria, baixo, teclados e até um instrumento indiano. O disco vendeu mal. Hoje está em primeiro lugar na lista do El País dos melhores discos espanhóis desde 1975.
- Artista
- Camarón
- Álbum
- La leyenda del tiempo
- Ano
- 1979
- País
- Espanha
- Gênero
- Flamenco
- Tempo de leitura
- 3 min de leitura

Até 1979, Camarón tinha gravado nove discos com Paco de Lucía, e todos seguiam a mesma receita do flamenco: voz, violão e palmas. Na capa do disco seguinte, até o nome mudou. O “de la Isla” sumiu e ficou só “Camarón”.
01Como era antes
Camarón nasceu José Monge Cruz, em San Fernando, na província de Cádiz, em 1950. Ricardo Pachón, produtor de Sevilha, contava que os discos anteriores de Camarón eram gravados numa sala pequena, num gravador de quatro canais, com a voz, um ou dois violões e palmas.
02A ruptura
Segundo a Rockdelux, em 1977 Camarón encerrou o contrato com o produtor Antonio Sánchez, pai de Paco de Lucía. Pachón convenceu o cantor a mudar e o cercou dos músicos com quem andava.
Pachón contou que pediu à Philips o estúdio grande da gravadora, em Madri. Antes, as músicas foram preparadas durante várias semanas na casa dele em Umbrete, perto de Sevilha. Segundo Pachón, Paco de Lucía chegou a topar tocar no disco, mas desistiu poucos dias depois. Os violões ficaram com Tomatito e Raimundo Amador, que contou em 2009 ter passado a lua de mel em Umbrete trabalhando no disco.
O resto também era novo. Em vez das letras tradicionais, o disco põe música em poemas de Federico García Lorca e de Fernando Villalón, com melodias do próprio Pachón. “Viejo mundo” usa um poema de Omar Khayyam com música de Kiko Veneno, que também compôs “Volando voy”.
Em volta da voz de Camarón entraram guitarra elétrica, baixo elétrico, bateria, os teclados de Manolo Marinelli, a flauta de Jorge Pardo e a percussão de Rubem Dantas. Na canção de ninar que fecha o disco, Gualberto, ex-integrante da banda Smash, toca um instrumento de cordas indiano, e um sintetizador encerra a faixa-título. Num texto publicado no El País em 2012, Pachón resumiu assim: “Tudo era novo para ele.”
03A reação
A recepção foi fria. O disco vendeu mal e foi recebido com indiferença, quando não com rejeição. Pachón e Tomatito lembravam que muita gente devolvia o disco nas lojas, dizendo que aquilo não era Camarón, ou que não era flamenco.
Até Tomatito estranhou. Em 2009, em Barcelona, ele contou a jornalistas, segundo o jornal Público, que durante a gravação achava aquele um disco estranho e feio. E o próprio Camarón recuou. No mesmo texto de 2012, Pachón escreveu que o cantor pediu que o disco seguinte fosse só violão e palmas.
04O legado
Com o tempo, a avaliação mudou. Em 2004, a revista espanhola Rockdelux colocou La leyenda del tiempo em segundo lugar entre os 100 melhores discos espanhóis do século 20. Em 2025, o Babelia, suplemento cultural do El País, pôs o álbum em primeiro lugar na lista dos 50 melhores discos espanhóis desde 1975, escolhidos por 41 críticos e jornalistas. O documentário Tiempo de leyenda, de José Sánchez-Montes, lançado em 2009, conta a história do disco.
Camarón morreu em 1992. Ricardo Pachón morreu em Sevilha, em 19 de agosto de 2026.
Fontes e referências (9)
- 1.Vida de una leyenda (abre em uma nova aba). Ricardo Pachón, El País (Babelia), 2012 (press scan)
- 2.Cuando Camarón descubrió el rock (abre em uma nova aba). Diego A. Manrique, El País, 2013 (press scan)
- 3.Camarón: La leyenda del tiempo (abre em uma nova aba). Àlex D’Averc, Rockdelux, 2004
- 4.La leyenda de un disco ‘raro y feo’ (abre em uma nova aba). Lídia Penelo, Público, 2009
- 5.Camarón se hizo leyenda (abre em uma nova aba). Daniel Pérez, La Voz de Cádiz, 2009 (copy)
- 6.Los 50 mejores discos españoles del último medio siglo (abre em uma nova aba). El País, Babelia, 2025
- 7.Fallece Ricardo Pachón, productor del disco ‘La Leyenda del Tiempo’ de Camarón (abre em uma nova aba). Europa Press, via Público, 2026
- 8.Muere Ricardo Pachón, productor de leyendas del ‘nuevo flamenco’ (abre em uma nova aba). Nel Gómez, Infobae, 2026
- 9.Camarón, La Leyenda Del Tiempo (Philips, 1979, credits) (abre em uma nova aba). Discogs
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