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B-Side Story

História de um álbumFaixa 10

Um presente da Bahia, um maestro e um coro de amigos

Em 1966, Baden Powell e Vinicius de Moraes gravaram Os Afro-Sambas com um maestro de formação clássica e um coro cheio de amigos. Décadas depois, já evangélico, Baden decidiu deixar de tocar algumas das músicas.

Artista
Baden Powell & Vinicius de Moraes
Álbum
Os Afro-Sambas
Ano
1966
País
Brasil
Gênero
Samba
Tempo de leitura
3 min de leitura
Capa do álbum Os Afro-Sambas, de Baden Powell & Vinicius de Moraes

Os Afro-Sambas, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, nasce de um presente: um disco trazido da Bahia. Até chegar ao estúdio, a história ganhou um maestro erudito e um coro de amigos.

01Um disco trazido da Bahia

No começo dos anos 1960, o compositor baiano Carlos Coqueijo trouxe da Bahia um disco para o amigo Vinicius de Moraes. Era uma gravação ao vivo, uma mistura de sambas de roda, cantos de candomblé e berimbau. Pesquisadores acreditam que o compilado era "Sambas de Roda e Candomblés da Bahia", com a mãe de santo Olga de Alaketu e Mestre Bimba como protagonistas.

Nessa época, Vinicius e Baden tinham começado a compor juntos para valer. Segundo Vinicius, os dois passaram cerca de três meses quase sem sair de casa, obcecados pelas composições daquela surpresa, que, ao que tudo indica, foi uma das grandes inspirações para a obra-prima que viria em seguida.

02Baden em Salvador

Ainda no começo da parceria, Baden foi a Salvador para ver o candomblé de perto e conviveu com gente que conhecia o assunto em detalhe. Numa crônica de 1965, Vinicius escreveu que o parceiro voltou "inteiramente tomado pelos cantos e ritos dos orixás".

03O regente: da vanguarda ao maracatu

Para os arranjos e a regência, a dupla chamou o maestro César Guerra-Peixe, com quem Baden estudava. Violinista de formação clássica, ele tinha começado na vanguarda, compondo música dodecafônica, mas mudou de rumo. A partir de 1949, passou cerca de três anos no Recife pesquisando música popular, como os maracatus e o xangô. O xangô é a religião afro-brasileira daquela região e lembra em certos aspectos o candomblé.

04O coro de amigos

Vinicius queria um disco espontâneo. Na contracapa, escreveu que a ideia era gravar "com um máximo de liberdade criadora e um mínimo de interesse comercial".

Para "desprofissionalizar" a gravação, ele montou o que chamou de "Coro da Amizade", com amigos escolhidos a dedo. Estavam lá Tereza Drummond, Otto Gonçalves Filho, Nelita, mulher de Vinicius, e Eliana Sabino, filha de Fernando Sabino. Também cantou a atriz Betty Faria, que faz um solo respondendo a Vinicius em "Canto de Ossanha".

Vinicius conta que eventualmente, ao chegar na gravação, viu um psiquiatra, César Augusto, regendo o coro. Sem muita cerimônia: ainda de jaleco, do jeito que tinha chegado do plantão.

05Gravado no calor de janeiro

A gravação aconteceu no começo de 1966, no calor de janeiro, como Vinicius registrou na contracapa. Anos depois, Baden lembrou que em um daqueles dias caiu um temporal, com a água invadindo o estúdio e os músicos tocando sentados em cima de engradados de cerveja.

O disco saiu pela Forma, um selo pequeno e de vida curta. Na época, vendeu pouco.

Em 1990, Baden regravou o disco, agora cantando ele mesmo. Chamou de novo o Quarteto em Cy e incluiu três faixas a mais. Vinicius tinha morrido em 1980.

06Palavras que ficaram pelo caminho

No fim dos anos 1990, Baden se tornou evangélico.

Em 1999, ele deu uma entrevista à Folha de S.Paulo e foi perguntado se gravaria os afro-sambas de novo. "Gravo. Só alguns não posso gravar, né?", respondeu.

Como exemplo, citou o "Samba da Bênção", que não está no disco: "Posso tocar o 'Samba da Bênção', mas não falo saravá, porque é um louvor a satanás".

Na mesma conversa, Baden disse que os afro-sambas não eram música feita para o candomblé: "É coisa de cultura". Disse também que não criticava quem cantava essas músicas e elogiou as gravações recentes de Paulo Bellinati e Mônica Salmaso.

Fontes e referências (12)

  1. 1.Vinicius de Moraes, back cover text of Os Afro-Sambas (Rio, February 1966), transcribed in Isabela Martins de Morais e Silva, "É, não sou: ensaios sobre os afro-sambas no tempo e no espaço" (abre em uma nova aba). Master's dissertation, UNESP Araraquara, 2013 (annex, pp. 244-247; also quotes Baden's memory of the recording from Dominique Dreyfus, "O Violão Vadio de Baden Powell")
  2. 2.Pedro Alexandre Sanches, "Evangélico, músico não diz mais 'saravá'" (abre em uma nova aba). Folha de S.Paulo, 13 July 1999
  3. 3."Baden Powell: morre aos 63, no Rio, o mestre do violão" (abre em uma nova aba). Folha de S.Paulo, 27 September 2000
  4. 4.Túlio Ceci Villaça and Leon Navarro, "Intuitivo, impreciso, fundamental: Os Afro-sambas" (abre em uma nova aba). Revista SEDA, v. 7, n. 15, 2023
  5. 5.Lucas Brêda, "Filme mostra 'Afro-sambas' como resultado de 'pesquisa séria' de Baden e Vinicius" (abre em uma nova aba). Folha de S.Paulo, 24 June 2025
  6. 6.Ariel Fagundes, "A genealogia oculta dos 'Afro-Sambas'" (abre em uma nova aba). Noize, 19 October 2023 (quotes Vinicius's 1965 column "Meu parceiro Baden Powell")
  7. 7.Isabel Cristina Martins Guillen, "Guerra Peixe e os maracatus no Recife" (abre em uma nova aba). ArtCultura (UFU), v. 9, n. 14, 2007
  8. 8."Guerra-Peixe" (abre em uma nova aba). Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira
  9. 9."Os Afro-sambas" (abre em uma nova aba). Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira
  10. 10."Os Afro-Sambas de Baden e Vinicius" (abre em uma nova aba). Enciclopédia Itaú Cultural
  11. 11.Marcos Sampaio, "O batuque de fé dos afro-sambas" (abre em uma nova aba). O Povo+, 16 July 2022
  12. 12.Os Afro-Sambas de Baden e Vinicius (Forma, 1966) (abre em uma nova aba). MusicBrainz

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